Wednesday, August 01, 2007

Desânimo



Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!



Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...



E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?



Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!



Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!



Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...



[Álvares de Azevedo]

Monday, July 30, 2007

Lágrimas da vida




Se tu souberas que lembrança amarga
Que pensamento desflorou meus dias,
Oh! tu não creras meu sorrir leviano,
Nem minhas insensatas alegrias!



Quando junto de ti eu sinto, às vezes,
Em doce enleio desvairar-me o siso,
Nos meus olhos incertos sinto lágrimas...
Mas da lágrima em troco eu temo um riso!



O meu peito era um templo - ergui nas aras
Tua imagem que a sombra perfumava...
Mas ah! emurcheceste as minhas flores!
Apagaste a ilusão que o aviventava!



E por te amar, por teu desdém, perdi-me...
Tresnoitei-me nas orgias macilento,
Brindei blasfemo ao vício e da minh'alma
Tentei me suicidar no esquecimento!



Como um corcel abate-se na sombra,
A minha crença agoniza e desespera...
O peito e lira se estalaram juntos...
E morro sem ter tido primavera!



Como o perfume de uma flor aberta
Da manhã entre as nuvens se mistura,
A minh'alma podia em teus amores
Como um anjo de Deus sonhar ventura!



Não peço o teu amor... eu quero apenas
A flor que beijas para a ter no seio...
E teus cabelos respirar medroso...
E a teus joelhos suspirar d'enleio!



E quando eu durmo... e o coração ainda
Procura na ilusão tua lembrança,
Anjo da vida passa nos meus sonhos
E meus lábios orvalha d'esperança!

Friday, July 27, 2007

Amor (Álvares de Azevedo)

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Remorso (Olavo Bilac)

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Wednesday, July 25, 2007

é, me deu vontade de fazer uma musica... Nem sei se saiu boa:

Só com a solidão

Desde que cheguei aqui
O céu desbotou, o sorriso amarelou
Meu lápis não responde mais
O que era mar virou um cais
Amigos já nem sei quem são
Paixões vem e vão
E só sobra eu, só com a solidão

Não quero levantar, enfrentar mais um dia
Me deixa quieto, não me acorda
Se quiser, traga um café...
Deixa aí, fecha a porta.

Minha Música perdeu a poesia
Minha Arte perdeu a inspiração
Um dia, quem sabe, eu acordo
E vejo tudo de outro jeito
Aí pode ser que te procure, pra saber de ti
E entender o que aconteceu
Mas por enquanto...


Me deixa cair num sono profundo
Pra me achar dentro de mim
Encontrar o eu que eu mesmo desconheço


Elisama Cristina de Oliveira Marques
“Por um momento consegui te sentir. Consegui ouvir sua respiração, até te toquei... Viajei em seus olhos, flutuei como se fosse um sonho, mas de repente abri meus olhos e me vi sozinha no quarto de madrugada.
Chego à janela e você me chama, mas tão nitidamente que eu acredito que seja verdade... Quero flutuar no azul escuro do céu com você, me sinto cada vez mais perto... Você me convida de uma forma tão sedutora... Parece tudo tão real... Mas, como um baque lembro que você não está mais aqui... Mas agora já é tarde demais... “Já estou indo...” De repente me sinto amparada por suas mãos. “Agora nunca mais nos separaremos.” Você disse.
E fomos assim voando pelo céu enquanto um corpo sem vida jazia no chão com um sorriso sereno nos lábios...”


Elisama Cristina de Oliveira Marques
“Tem dias que a gente acorda com vontade de não ter acordado. Acorda com um vazio, uma angústia... Sentindo saudades de algo que não viveu, de alguém que não existe, ou talvez exista mas que ainda não tivemos a chance de conhecer... Ou pior: Você conhece, mas sabe que era melhor não ter conhecido...
É sempre bom ter alguém ao lado, mas, se a gente não tem acontece essas coisas. Parece que falta uma parte, aliás, uma boa parte...
Solidão é isso... Sentir falta de alguém que não se sabe, sentir saudade de um tempo que não existiu, sentir a perda de algo que nunca se teve.
Dizem que é assim mesmo até encontrarmos alguém que realmente valha a pena, até despertamos um sentimento confuso e genuíno: O amor. Mas enquanto não o encontramos vamos nos acostumando com a solidão, mas sem se acostumar muito hein! ”


"Solidão" - Elisama Cristina de Oliveira Marques

Thursday, December 07, 2006

... Às vezes parece que eu não existo... Quando fecho meus olhos à noite, não parece que eu tenha vivido tudo aquilo que me lembro... parece que estou assintindo a vida de uma outra pessoa, alguém que não conheço, que me é totalmente indiferente...
Viver parece uma ilusão. Para mim só existe o presente porque quando penso no passado me parece que estou sonhando... Será a vida uma sombra da cristividade de um Ser Superior? Será que não comandamos nossos passos por nós mesmos e sim pela mente de outrem?
Parece loucura pensar assim e talvez até seja mesmo... Na minha opinião a vida é uma peça teatral onde estamos todos representando o papel de nós mesmos, mas de um jeito diferente do que realmente somos ou desejamos ser... Ninguém é capaz de ser como quer. Não somos o que queremos ser, somos como nos ensinaram que é "correto" ser. Mas se tudo é relativo, como saber se é certo o que fazemos, pensamos, falamos ou nosso modo de agir?
Meus maiores conflitos são os comigo mesma. Acho que é meu "eu verdadeiro" que se choca com meu "eu imputado" (pela familia, sociedade, cultura...). O Modo como sou difere do modo como realmente desejo ser, e isso me agride profunda e significativamente... is a causa dessa confusão que há na minha mente...
Faço minhas as palavras de Sheakspeare:
"Ser ou não ser? Eis a questão..."


Elisama Cristina de Oliveira Marques

Thursday, November 30, 2006

"É como se eu nascesse todo dia. Não é incrível que existam bananeiras, abacateiros e jabuticabeiras? De onde será que veio tudo isso? Todo dia eu me faço as mesmas perguntas. É como se eu estivesse vendo as coisas do mundo sempre pela primeira vez. Os vales, a chuva, os mares. A terra, os animais e as floretas. O fogo, o tempo e a claridade. Sem falar no céu com todas as suas estrelas e na lua com todas as suas fases. Como surgiu tudo isso? Os meus porquês são palavras incontáveis. O sentimento de absurdo me invade quando reparo na arquitetura humana. O sistema nervoso, veias e artérias, músculos e ossos, cérebro e coração. Bocas e braços, narizes e olhos, ouvidos e mãos. O ser humano é feito de uma perfeição absurda. Realmente inexplicável. Me admiro o tempo inteiro e acredito que nunca vou me acostumar com as coisas do mundo. Quem criou tudo isso? A resposta óbvia me remete a Deus e eu pergunto: Se Deus criou tudo, quem criou Deus? Se tudo surgiu dele, de onde ele surgiu então? As perguntas continuam sendo as mesmas, só muda o sujeito da oração. Eu vejo as coisas do mundo como quem assiste à um espetáculo de mágica. Num grande truque, o belo coelho branco surge de dentro da cartola até então vazia. Como assim? Não sei. Mas quero muito saber. Todo dia eu acordo buscando saber quem sou e de onde vem o mundo. E me faço as mesmas perguntas. É como se eu estivesse vendo as coisas do mundo sempre pela primeira vez. É como se eu nascesse de novo, todo dia."
[ O Teatro Mágico ]

Wednesday, November 29, 2006

Querer
Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

(mais uma de Pablo Neruda...)

[acho que só vai ter poesias nesse blog...]
Walking Around

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas....



Esse poema é de Pablo Neruda, um poeta que um amigo meu me ensinou a gostar...